"Para alguns, ter um filho pode representar a chance de poder criar uma família que seja o oposto daquela em que cresceu e, assim, achar que, através deste filho, conseguirá obter o que sempre faltou em sua vida até o momento.
Para outros, ter um filho pode ser visto como uma maneira de “aprisionar” a pessoa amada e de achar que, deste modo, ficarão unidos para sempre.
Para alguns adolescentes desavisados, ter um filho pode simbolizar a entrada no mundo dos adultos, passando a ser visto como tal, principalmente aos olhos dos próprios pais.
Ter um filho pode ser encarado como a porta de saída da casa dos pais, de fuga dos conflitos e crises que lá existem, através de um casamento prematuro, provocado pela gravidez.
Ter um filho pode ser um meio de se afirmar em seu próprio papel sexual, através da comprovada capacidade de procriação.
Ter um filho pode representar uma esperança de salvar o casamento e de suprir um distanciamento no conviver a dois.
Ter um filho pode expressar uma necessidade consciente ou inconsciente de ser muito amado, de fugir da solidão ou de poder concretizar ideais não atingidos, através desta criança, no futuro.
Enfim, ter um filho pode ser resultante de muitos fatores que tornam esta escolha um passo muito imaturo e perigoso, já que não vem acompanhada do sólido desejo de se tornar pai ou mãe.
Ter um filho precisa ser, antes de tudo, um abraçar consciente de um novo e árduo papel: tornar-se um cuidador e um formador de mentes e comportamentos, valorizando o exemplo mais do que as palavras, buscando coerência mais que cobranças, priorizando o bem do outro, mesmo que este não lhe seja grato ou reconheça de imediato seus esforços...
Com certeza, a decisão de ter um filho vai muito além dos gastos financeiros, do amamentar e das horas mal dormidas ou de uma mudança significativa no dia-a- dia.
Com certeza, a decisão de ter um filho é uma escolha que gera, ou deveria gerar, um adulto constantemente chamado a crescer junto a seu filho.
É interessante que você, pai ou mãe, se pergunte sobre quais eram as suas expectativas reais ao decidir ter filhos. Esta reflexão talvez possa ajudá-lo a lidar melhor com os conflitos e possíveis frustrações em seus relacionamentos com eles. Quem sabe, você se deixou contaminar por sonhos ou os viu mais como um meio de satisfação pessoal do que como seres que nascem carentes, mas que devem crescer aprendendo a serem independentes de você?
Seja qual for a resposta que encontrar a esta pergunta, lembre-se que sempre há tempo de construirmos um novo final para nossas histórias."
Elisabeth Salgado